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10 de agosto de 2015

Onde você quer estar daqui a cinco anos?

Eu sempre tenho a sensação de que estou mentindo quando respondo essa pergunta em processos seletivos. Eu pareço inventar qualquer coisa, porque na verdade eu não tenho certeza de onde quero estar. Já quis estar em milhares de lugares diferentes. E já mudei de ideia milhares de vezes.

Em cinco anos eu queria ser astronauta. Imagem: Shutterstock

Em cinco anos eu queria ser astronauta. Imagem: Shutterstock

Até a metade da antiga terceira série do ensino fundamental, meus pais puderam pagar para eu estudar em uma boa escola particular. Mas por conta de algumas dificuldades nos negócios tivemos que voltar para a capital, e minha família e eu fomos morar na casa da minha vó. Terminei a terceira série numa escola municipal. Graças às amizades da minha vó, meus pais conseguiram uma bolsa de estudos para que eu estudasse a partir da quarta série em uma escola particular. Eu me lembro bem que nessa época eu, obviamente, queria ser astronauta ou piloto de avião.

Eu era um bom aluno, mas não era exemplar. Durante a quinta série, eu não gostava muito de uma professora de geografia e então matava as aulas e ficava caminhando pela cidade. Eu faltava basicamente toda terça e quinta. Faltei por quase um mês, até que a professora resolveu ligar para os meus pais. Foi a partir desse momento que eu me tornei um aluno assíduo: todo dia eu tinha que chegar em casa com a agenda assinada e datada pelo supervisor da escola. E acho que você pode imaginar o que aconteceria se a assinatura não estivesse lá.

Quando estava com 13 ou 14 anos, eu queria muito ter um vídeo game que tinham lançado, mas meus pais não tinham nenhuma condição de comprá-lo (nessa época um pendrive de 128Mb custava R$300,00). Então eles sugeriram que eu trabalhasse pra comprar. Meus pais me emprestaram R$50,00 e eu comprei vários docinhos e picolés para vender na feirinha de artesanato onde minha mãe trabalhava. Depois do primeiro dia de vendas, paguei o que tinha pego emprestado e reinvesti o lucro para comprar mais doces e picolés. Depois de uns 8 meses, e de me fantasiar até de Papai Noel pra ganhar uns trocados a mais, eu tinha juntado dinheiro suficiente para comprar o vídeo game. Onde eu queria estar em cinco anos? Jogando vídeo game com certeza.

Em cinco anos eu queria estar jogando vídeo game. Imagem: Shutterstock

Em cinco anos eu queria estar jogando vídeo game. Imagem: Shutterstock

Eu tive bolsa de estudos parcial durante o restante do ensino fundamental por causa das dificuldades financeiras que minha família ainda enfrentava. Lembro que participei de algumas olimpíadas de matemática e física, mas nunca consegui passar das eliminatórias. Quando terminei o fundamental, queria estudar num colégio melhor e então fiz uma prova e consegui uma bolsa de estudos de 50% para o primeiro ano do ensino médio. No ano seguinte mantive o desconto, e para o terceirão fiz outra prova e dessa vez consegui uma bolsa integral.

Comecei a trabalhar com 15 anos, enquanto ainda estava no primeiro ano do ensino médio. Sim, no começo meus pais foram contra e falaram que eu deveria somente estudar, mas eu insisti tanto que eles concordaram e me deixaram trabalhar. E é claro que eu trabalhava de forma ilegal, pois nossa legislação só permite que se trabalhe após os 16 anos. Eu era responsável por fazer cópias de CDs e DVDs com gravações dos cultos de uma igreja. E assim ganhava um dinheirinho só meu. Provavelmente por trabalhar em uma igreja, em cinco anos eu sonhava em ser pastor.

Tive um excelente professor de física no segundo ano do ensino médio. Com o dinheiro que ganhava no meu trabalho, e inspirado pelas aulas de física, construí uma luneta: um par de lentes, alguns tubos de PVC e tinta preta. Apontei pra estrela mais brilhante no céu, e em volta dela havia quatro outros pontinhos brilhantes e alinhados. Na hora pensei: “Que droga! Essa luneta que eu montei está com problemas. O que são esses reflexos estranhos?” Depois de um tempo percebi que só aquela estrela tinha esses quatro pontinhos brilhantes. E aí descobri que a estrela não era uma estrela, mas sim o planeta Júpiter, e que os quatro pontinhos não eram reflexos de uma luneta com problemas, e sim as suas luas. E aí botei na cabeça que dali a cinco anos eu seria um físico que trabalharia com óptica.

Durante o ensino médio eu botei na cabeça que dali a cinco anos seria um físico que trabalharia com óptica.  Imagem: Shutterstock

Durante o ensino médio eu botei na cabeça que dali a cinco anos seria um físico que trabalharia com óptica. Imagem: Shutterstock

Talvez por não ter estudado nos colégios onde os melhores (e mais ricos) alunos estudavam, eu não fiquei sabendo de algumas oportunidades. Por exemplo, eu sabia que existiam várias universidades no exterior, mas não sabia que eu poderia me candidatar pra estudar lá. E eu também não tinha ideia da fortuna que você precisa gastar para estudar em uma universidade como Harvard, MIT ou Stanford. Nem sabia das bolsas, muitas vezes integrais, que eles oferecem para os bons alunos. Se na época eu soubesse disso, talvez tivesse me dedicado mais para conseguir fazer a graduação no exterior.

Também por influência de um professor de filosofia do ensino médio me tornei um leitor ávido. Meu primeiro livro foi O Mundo de Sofia, obviamente uma indicação do professor de filosofia. E a partir desse momento comecei a questionar várias coisas que eu tinha por certas, e o meu salário, ao invés de ir para a astronomia, começou a ir para as livrarias. Criei uma loja virtual para a minha mãe vender os artesanatos que ela produz e ela me pagou com aproximadamente 40 livros.

Ao começar o terceirão eu já trabalhava com carteira assinada (copiando CDs e DVDs, desenvolvendo projetos gráficos e websites), mas pedi demissão para me dedicar integralmente aos estudos. Por causa do meu trabalho, até pensei em fazer design gráfico, mas meu lado cientista falou mais alto e ingressei no curso de Bacharelado em Física. Nessa época eu tive muitas dúvidas se em cinco anos estaria trabalhando em uma agência de publicidade ou em um laboratório.

Todos aqueles livros que li durante o ensino médio e começo da faculdade começaram a fazer efeito e eu comecei a escrever. Participei de oficinas de literatura com grandes autores de ficção científica, e escrevi várias poesias e alguns contos. Alguns trabalhos meus foram inclusive “oficinados” por estes autores. Em cinco anos eu claramente seria um grande poeta e autor de ficção.

Já quis ser poeta e autor de ficção. E sim, na época até usava uma caneta tinteiro pra me sentir um poeta de verdade. Imagem: Shutterstock

Já quis ser poeta e autor de ficção. E sim, na época até usava uma caneta tinteiro pra me sentir um poeta de verdade. Imagem: Shutterstock

Ao final do primeiro ano da minha graduação um professor do departamento de física me aceitou como aluno de iniciação científica. Eu iria trabalhar com sensores para diagnóstico médico, continuando o trabalho de uma mestranda. Esse trabalho que eu desenvolvi no laboratório teve vários desdobramentos. Entre eles: uma patente; um artigo em periódico internacional; e um projeto de desenvolvimento de produto em parceria com uma importante instituição de saúde pública do Brasil. Se nessa época você me perguntasse onde eu estaria em cinco anos, eu te responderia que estaria fazendo um doutorado no exterior.

Além da graduação e da iniciação científica, eu continuava fazendo uns bicos por fora. Desenvolvi uma loja virtual para uma fabricante de uniformes profissionais do Rio de Janeiro, trabalhei como garçom em um grande restaurante, fui vendedor em uma loja de materiais de construção e depois professor substituto de física em uma escola estadual. Essa última experiência me mostrou que lecionar para o ensino médio não era pra mim.

Até que no final de 2011 surgiu o programa Ciência Sem Fronteiras. Eu falei com o meu orientador e ele disse que tentaria me enviar para uma excelente universidade. Devido a vários entraves burocráticos acabamos perdendo a primeira chamada do programa, mas consegui me inscrever na segunda chamada e, em agosto de 2012, embarquei para estudar na 9ª melhor universidade do mundo, a Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos.

Em cinco anos eu queria fazer doutorado em física no exterior. Depois mudei de ideia e queria cursar MBA nos EUA. Foto: Shutterstock

Em cinco anos eu queria fazer doutorado em física no exterior. Depois mudei de ideia e queria cursar MBA nos EUA. Foto: Shutterstock

No exterior eu cursei várias disciplinas que não teria a oportunidade de fazer aqui no Brasil. Assisti aulas de empreendedorismo, biotecnologia, biomateriais, nanotecnologia e de dispositivos semicondutores. Participei de dois Startup Weekends (minha equipe levou o segundo lugar em um deles); apresentei trabalho em um congresso internacional; comprei uma bicicleta e pedalei de Filadélfia até Atlantic City; e depois de Filadélfia até Nova Iorque. Participei de vários encontros de empreendedores, fiz amizade com indianos, patinei no gelo, vi neve pela primeira vez. Nesse momento a minha meta era de em cinco anos voltar para o exterior para cursar um MBA.

Posso dizer que esse intercâmbio realmente mudou a minha vida. Estudar fora me fez repensar a escolha pelo curso de física. Não que eu não goste mais da física, mas eu percebi que eu não quero ser um especialista. A física invariavelmente me levaria pra esse caminho: mestrado, doutorado, pós-doutorado. Eu iria me transformar em alguém que sabe muito sobre quase nada.

E a única forma de ser um especialista e fazer alguma diferença no mundo é sendo “o melhor especialista”. E eu nunca fui o melhor (e nem quero ser). Quero aprender um pouco de cada, algumas matérias na engenharia, outras na biologia, algumas na administração. Eu percebi que eu poderia ser o cara que conecta os especialistas, que os fazem trabalhar juntos. Então eu já sabia claramente onde eu NÃO queria estar: dentro de um laboratório em uma universidade pública.

Eu voltei ao Brasil com uma mala cheia de livros e com vontade de fazer alguma coisa para retribuir pela bolsa de estudos que eu recebi. Então me juntei a dois amigos e fundei uma revista de tecnologia e ciência para universitários. Nossa ideia é publicar conteúdo interdisciplinar para tentar aproximar as várias áreas do conhecimento e fazer com que estudantes de engenharia entendam um pouco de biologia, formar biólogos que entendam de física, e físicos que entendam de medicina. Em 2013 começamos a distribuir exemplares gratuitamente em quatro universidades. Hoje já publicamos 12 edições e estamos presentes em mais de 80 instituições em todo o Brasil. Nesse momento eu imaginava que em cinco anos estaria distribuindo a revista em todas as universidades do Brasil.

Estagiei na área de análise de dados em um banco multinacional e recebi uma oferta de efetivação, mas pedi para sair, pois queria me dedicar integralmente à revista que criei. Prestei outro vestibular e hoje curso o segundo semestre de administração. Entretanto já tenho dúvidas sobre a minha escolha e tenho até um pouco de vontade de voltar para a física. Onde eu quero estar em cinco anos? Ter me formado em algum curso de graduação.

Quando voltei do intercâmbio criei uma revista de tecnologia e ciência para universitários. Em cinco anos queria levar a revista para todas as universidades do Brasil. Foto: Polyteck

Quando voltei do intercâmbio criei uma revista de tecnologia e ciência para universitários. Em cinco anos queria levar a revista para todas as universidades do Brasil. Foto: Polyteck

Onde você quer estar em cinco anos?

Eu tenho a impressão de que estou inventando qualquer coisa pra responder essa pergunta, porque na verdade eu não tenho certeza da resposta. Já quis estar em milhares de lugares diferentes e já mudei de ideia milhares de vezes. Não sei onde estarei em cinco anos, porque a cada dia novas experiências vão me transformando e modificando as minhas metas. Algumas dessas mudanças são sutis, outras nem tanto.

Se não fossem os meus pais que sempre me apoiaram e que me obrigaram a ir para a escola quando eu matava aula de geografia; se não fossem os muitos professores que me influenciaram; todas as pessoas que me apoiaram; as decisões que tomei; e as oportunidades que aproveitei, eu não estaria neste exato lugar. São estas experiências que definem quem eu sou, onde eu estou e onde quero chegar. Assim como são somente as tuas experiências que definem quem você é e que te levaram até onde você está.

Onde eu quero estar em cinco anos não tem uma resposta absoluta. Esse desejo de estar em algum lugar é um reflexo do nosso momento de vida e do conjunto de experiências que acumulamos. As nossas metas e objetivos vão mudar. É claro que todos devemos ter objetivos de longo prazo, mas para o curto prazo eu gostaria de parafrasear a presidente: vamos deixar uma meta aberta. Se eu cheguei onde queria? Definitivamente não, no começo eu nem sabia que queria chegar aqui. Onde quero estar em cinco anos? Não sei. Só sei que estarei em algum lugar melhor do que aquele em que estou agora.

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