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13 de fevereiro de 2014

Como o Ciência sem Fronteiras mudou a minha vida

7 lições de vida aprendidas no Ciência sem Fronteiras e como eu estou usando isso para impactar outros estudantes. Leia até o final, você não vai se arrepender.

No dia 23 de agosto de 2012 eu embarcava rumo aos Estados Unidos com passagem, hospedagem, alimentação e educação pagos pelo programa Ciência sem Fronteiras. Meu destino era a University of Pennsylvania (uPenn), instituição fundada em 1740 por Benjamin Franklin, e considerada a nona melhor universidade do mundo. Ela fica localizada na cidade de Filadélfia, somente a algumas horas de viagem de Nova Iorque.

Embora eu estude Bacharelado em Física aqui na UFPR, fui aceito para o programa de Engenharia Elétrica e de Sistemas da instituição. Devido ao auxílio do meu orientador de iniciação científica prof. Cyro Ketzer Saul, eu já teria um professor me esperando na uPenn para realizar pesquisa por lá, complementando o meu trabalho aqui no Brasil. Fui orientado pelo prof. Jorge Santiago, um Porto-Riquenho que já visitou mais lugares no Brasil do que qualquer um que eu conheço.

Minha carta de aceitação na uPenn!
Minha carta de aceitação na uPenn pelo Ciência sem Fronteiras

Primeira lição logo no primeiro dia

Minha primeira parada foi em Miami, onde fiz escala para Filadélfia e passei pelos tradicionais procedimentos de imigração. No final do mesmo dia eu desembarcava na estação de trem localizada próxima aos hospitais da universidade. Sob um calor de 35oC e uma sensação térmica próxima dos 40oC, fui para o hotel onde eu ficaria pelos primeiros três dias até que os dormitórios da universidade abrissem para os estudantes.

Crédito da foto: Flickr - smile its shan [dailytexanonline.org]
Crédito da foto: Flickr – smile its shan [dailytexanonline.org]
Logo na primeira noite no hotel um alarme dispara com a seguinte mensagem: “Attention! Attention! An emergency has been reported in the building. Please walk to the nearest exit stairway and leave the building. Do not use the elevators. Do not use the elevators. Walk to the nearest exit stairwell.” Eu realmente acreditei que havia fogo. Ao sair do prédio a polícia e os bombeiros já haviam chegado. Depois ao ouvir algumas conversas descobri que alguém deixou a pipoca queimar no microondas e que isso disparou os detectores de fumaça. Nesse momento aprendi a primeira lição de vida:

1 – Não deixe a pipoca queimar.

Depois de um tempo me acostumei aos alarmes, treinamentos de emergência e a ver os bombeiros correndo de um lado pro outro umas 5 vezes ao dia.

Eu precisava mudar

Na época que fui para o intercâmbio eu era bem quieto e tímido, demorava muito tempo para fazer amigos. Eu não sabia como levar uma conversa informal e na maior parte das vezes eu ficava sem assunto após dois minutos de conversa.

Logo na primeira semana houve um coquetel de recepção para estudantes internacionais promovido pelos conselheiros do meu dormitório. Um conselheiro é um veterano que tem a função de integrar os novos estudantes com a comunidade, apresentar a universidade e resolver conflitos (coisas como ouvir música alta as 3am, vomitar no chuveiro, etc) no decorrer do ano. Eu participei dessa recepção e me esforcei para vencer minha timidez e conversar com vários conselheiros e com outros estudantes internacionais. Achei que tinha feito alguns amigos, mas acho que fui muito ingênuo: na semana seguinte eles pareciam nem lembrar de mim.

Fisher Hassenfeld é o dormitório onde fiquei hospedado.
Fisher Hassenfeld é o dormitório onde fiquei hospedado.

O mesmo ocorreu com os outros estudantes que moravam no mesmo corredor que eu. Eu tive vizinhos de quarto que não olhavam na cara para dizer bom dia. Como eu nunca gostei de festas e baladas, também demorei muito tempo para conversar com outros brasileiros e me socializar. Tanto que o resto do pessoal que estava lá pelo Ciência sem Fronteiras só ficou sabendo que eu existia em dezembro, três meses após o começo do programa. Esse foi o começo da segunda lição:

2 – Eu precisava mudar e ainda não tinha percebido isso. Se eu não mudasse o meu comportamento, provavelmente não conseguiria conquistar os meus objetivos.

Recebi apoio psicológico gratuito e ao longo do tempo pude perceber e trabalhar nesses problemas. Sou extremamente grato à uPenn pelo auxílio prestado.

Incentivo à interdisciplinaridade

Apesar do fato de eu estar ligado ao departamento de Engenharia Elétrica e de Sistemas da uPenn, pude me matricular com enorme facilidade em matérias de outros departamentos. Foi exatamente o que eu fiz. No primeiro semestre assisti aulas de Fundamentos da Biotecnologia e de Biomateriais, essa última era disciplina obrigatória de vários programas de mestrado da universidade. Eu completei meus créditos com horas trabalhadas no laboratório do meu orientador.

Você deve estar pensando que ao assistir essas matérias, eu não poderia aproveitar os créditos no meu curso de física aqui no Brasil. E eu digo que você está certo, não pude aproveitar. Mas eu fiquei muito feliz com a minha decisão de não cursar matérias relacionadas à física, pois eu aprendi muitas coisas interessantes sobre áreas que eu sentia que estavam distantes de mim aqui no Brasil.

No segundo semestre me matriculei em Introdução à Nanotecnologia, Modelos Físicos de Dispositivos Semicondutores e em Empreendedorismo para Engenharia.

O interessante é que em todos os casos as turmas estavam cheias de alunos de vários departamentos. Alguns deles estavam ali por curiosidade, outros porque trabalhavam na área e queriam aprender mais, e alguns cursavam a disciplina pois ela era obrigatória para o currículo da formação que eles queriam. Em todas as turmas os professores mostraram aplicações práticas do que estávamos estudando e detalharam como várias áreas do conhecimento interagiram para chegar em determinado resultado. Essa foi a terceira lição:

3 – Os melhores alunos e professores não ficam presos às ementas obrigatórias dos seus cursos. Hoje a tecnologia e ciência não funciona mais em departamentos. Separar os alunos, professores e as aulas em silos não faz mais sentido. Percebi que quem persistir fazendo isso não vai se sustentar por muito tempo.

Além disso todas as disciplinas trataram de assuntos que são atualmente discutidos no meio acadêmico. Por exemplo: na turma de Fundamentos da Biotecnologia, que é ofertada para calouros, tive que escolher um dos temas sugeridos pelo professor, ler ao menos cinco artigos científicos recentes sobre o assunto e escrever um paper no formato review sobre o assunto. Isso para uma turma de calouros! Conheço muitos estudantes de engenharias e ciências que se formaram aqui no Brasil sem nunca ter contato com um artigo científico! Assim eu aprendi a quarta lição:

4 – Para fazer ciência e desenvolver tecnologia de ponta é preciso estar atualizado e é extremamente importante ter contato com artigos científicos. No Brasil, se um aluno não faz Iniciação Científica ou mestrado ele corre o risco de ganhar o diploma sem nunca ler um paper.

Indo de Filadélfia até Nova Iorque de bicicleta

Pode parecer que sou meio louco, mas chegando nos EUA eu comprei uma bicicleta pra poder explorar alguns lugares mais afastados e pedalei um pouco pelos arredores de onde morava. Na minha opinião foi a melhor forma de conhecer a cidade.

Então tive uma ideia: eu podia pedalar de Filadélfia até Manhattan, isso parecia ser ótimo pra conhecer melhor os lugares mais afastados e seria uma ótima história pra contar sobre a minha primeira vez em NYC. Não custava nada sonhar… O único detalhe é que eu nunca pedalei regularmente no Brasil e nunca tinha percorrido mais que algumas dezenas de quilômetros de bicicleta.

Dia 13 de outubro peguei a bicicleta e encarei os 160 km que separam as duas cidades.  Eu não estava nem na metade do caminho quando senti meus músculos da perna queimando e um cansaço indescritível. Parei em Princeton e sabia que a estação de trem estava a somente alguns quilômetros de distância. Considerei pegar o trem e voltar pra casa. Depois de comer uma barra de cereal pensei em continuar somente por mais uns 20 km, pois eu definitivamente não tinha condições de pedalar os 80 km restantes. Continuei. Ao concluir essa meta pensei: eu já pedalei 100 km, aguento mais 10. Após mais de nove horas pedalando cheguei em Manhattan. Comi um sanduíche, fui para a Penn Station e embarquei no trem com destino a Filadélfia.

O que me motivou? Bom… Eu tinha um objetivo: chegar em NYC. Não ganhei nada com isso, a não ser uma boa história pra contar. Pedalando eu aprendi a quinta lição:

5 – Vale a pena sonhar e traçar grandes objetivos. Quem tem objetivos ordinários ou desiste de grandes sonhos não tem boas histórias pra contar e vive a vida sem grandes aventuras. Se algo parece muito distante pra você, tente não pensar em tudo o que falta pra chegar lá, mas pense em quais são os próximos passos que você pode dar em direção ao seu sonho. Encare a dor e o cansaço e esqueça das estações de trem que vão surgir no caminho.

A universidade brasileira não supre as minhas necessidades de aprendizado

As aulas de empreendedorismo que assisti na Penn foram as melhores de toda a minha vida acadêmica. Eu consegui entender a como dar os primeiros passos em direção a criar algum produto ou serviço. Aprendi sobre marketing, consumidores, curva de adoção da tecnologia, finanças, investimentos, mercado de capital, patentes, registro de medicamentos, motivação e liderança.

Ao mesmo tempo que foi uma das melhores aulas que tive, foi uma das que mais exigiu de mim. Todas as terças-feiras eu precisava entregar um texto de duas laudas relatando como eu agiria em determinada situação descrita em um case de aproximadamente 30 páginas sobre alguma empresa de tecnologia, internet ou biotecnologia. Nas quintas-feiras precisava ler outro case com o mesmo número de páginas e responder um quiz em sala de aula sobre as leituras. Isso sem contar uma prova final (que abordou todo o conteúdo estudado) e um trabalho sobre venture capital entregue no meio do semestre. Palestras com empresários e investidores complementaram o aprendizado e serviram de inspiração.

Nunca vou me esquecer do Wawa e os maravilhosos cheesesteaks que eles faziam lá.
Nunca vou me esquecer do Wawa e os maravilhosos cheesesteaks que eles faziam lá.

Essa disciplina tinha 180 alunos divididos em três turmas. Eu acredito que pelo menos 150 destes alunos concluíram o curso com sucesso. Aí eu percebi que se nas universidades brasileiras os professores utilizassem um sistema de avaliação semelhante, não sobrariam muitos alunos na turma ao final do semestre. Dá pra ver isso ocorrer rotineiramente com as turmas de cálculo. Todo mundo reclama das universidades e professores, mas será que o principal problema não está nos alunos brasileiros?

Os alunos das universidades americanas são proativos e compromissados. Eles entram na universidade pensando em trabalhar em empresas como a Boeing, Amgen, Google, 3M ou em abrir a própria empresa. Eles entenderam que para conseguir se destacar não basta cumprir a ementa das matérias. Infelizmente no Brasil cumprir a ementa das matérias é quase que o limite imposto pelas universidades. Assim eu entendi a sexta e a sétima lição:

6 – Se a universidade brasileira não supre todas as minhas necessidades de aprendizado, eu preciso procurar outras formas de aprender.

7 – Se a universidade brasileira não supre as necessidades de aprendizado dos outros estudantes, então eu preciso fazer algo por eles. Esperar uma iniciativa do governo ou das instituições é uma atitude que nos atrasa.

Como estou trabalhando para impactar outros estudantes

Ainda na uPenn eu tive contato com um jornal universitário independente, o The Daily Pennsylvanian. Todos os dias, 8 mil exemplares eram distribuídos gratuitamente para os alunos da instituição. Fiquei admirado com o alcance da publicação dentro da universidade.

Depois de ter aprendido essas sete lições voltei dos Estados Unidos com uma ideia: criar um jornal de tecnologia e ciência para ser distribuído gratuitamente nas universidades. Assim nasceu a Polyteck.

Como você já sabe que eu gosto de sonhar alto, não vai se surpreender com isso: quero transformar a universidade brasileira em um espaço interdisciplinar e sonho em aproximar a academia da indústria. Eu quero inspirar outros estudantes a terem compromisso e serem proativos. Eu acredito que as nossas universidades devem ser o berço de jovens que fazem algo pelo país.

Comecei o meu trabalho com uma revista impressa de tecnologia e ciência que é distribuída gratuitamente dentro das universidades de Curitiba e tenho muitos planos do que fazer em seguida. O nosso objetivo é entregar a revista para os milhares de universitários que já perderam a real motivação de estudar. Jovens que não tem mais iniciativa para acessar algum blog sobre ciência na internet e muito menos vontade de ler um artigo científico ou um conteúdo mais aprofundado.

Com a Polyteck, nós mostramos para esses jovens os desenvolvimentos em diversas áreas do conhecimento e trabalhamos para mantê-los atualizados. Tentamos preencher os déficits da educação superior brasileira colocando os universitários em contato com informações sobre tecnologia e ciência de ponta.

Eu já mudei muito e a cada dia quero melhorar mais. Eu garanto que vou dar o máximo de mim para impactar a educação e preencher as deficiências no ensino dos universitários brasileiros. Vou trabalhar para criar um espaço de interdisciplinaridade dentro das universidades e derrubar as paredes que separam os nosso departamentos. Você tem a minha palavra que mesmo sentindo cansaço e dor eu vou seguir em direção ao meu objetivo e não vou sequer pensar em pegar o trem de volta pra casa. E o principal: Nunca deixarei a pipoca queimar.

Explore o site para conhecer a Polyteck!

Um abraço,

André Sionek

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